quarta-feira, 19 de abril de 2017

Vacinar ou não vacinar, eis a questão (?)

Nestes últimos dias temos estado a par do que se tem passado com os casos de Sarampo diagnosticados em Portugal e com a recente morte de uma jovem de 17 anos a quem foi transmitido o vírus por um bebé de 13 meses que também não estaria vacinado.
Não faltaram acesos debates na internet acerca da não vacinação das crianças e de todo um rol de críticas a aos pais que decidem não vacinar os filhos como se isso fosse uma moda.
Eu acredito, aliás, quero acreditar, que os pais que não vacinaram os filhos tiveram as suas razões - assim como os pais que decidiram vacinar os filhos têm as suas razões, certo? - e que não seja uma moda como tenho vindo a ler.
Penso que não se pode desatar a chamar de irresponsável aos pais que decidiram não vacinar os filhos sem saber o motivo que levou a esses pais a não vacinar os filhos.

Vamos por partes.
Situação A - A jovem com 17 anos que veio a falecer devido ao sarampo não estava vacinada pois, quando era mais nova, a toma de uma vacina resultou num choque anafilático. Se eu fosse mãe desta criança eu revoltar-me-ia contra tudo e contra todos pois a minha filha estava a sofrer e poderia morrer a qualquer momento. No caso, se a jovem tomasse mais alguma vacina, poderia acontecer o mesmo? Eu não sei, mas se estivesse no lugar da mãe era muito provável que não quisesse que filha minha tomasse qualquer outra vacina sem que ela fosse observada primeiro e fosse posteriormente obtido o diagnóstico de que foi só àquele tipo de vacina que a minha filha desencadeou uma reacção alérgica. Mas se fosse o contrário, não tomava mais nada!
Situação B - O bebé que deu entrada no Hospital de Cascais com sarampo tinha 13 meses e ainda não tinha a vacina em dia. Não li em sítio algum que os pais eram contra, mas que simplesmente houve um atraso e o bebé ainda não tinha sido vacinado. Posto isto, acho que é simples, certo?
Situação C - No próprio Hospital houve casos de contágio em que alguns dos contagiados tinham sido vacinados e outros não tinham sido vacinados, mas já tinham contraído a doença. Repito, alguns dos contagiados tinham sido vacinados.
Situação D -  A vacina contra o sarampo - e não só - só foi incluída no Plano Nacional de Vacinação (PNV) em 1974, ou seja, antes de 1974 só quem pudesse comprar a vacina iria vacinar os seus filhos. Em 1990 foi introduzida a segunda dose desta vacina. Segundo os dados do Pordata, no ano de 2015, o número de pessoas com idade até aos 39 anos e provavelmente vacinadas só com a primeira dose (seria suposto, certo?) é de 4.571.553 e o total de pessoas com 25 anos e com as duas doses (como seria de esperar, certo?) é de 2.137.943. O total de pessoas com mais de 39 anos é de 5.786.523 - e que muito provavelmente teve sarampo.. - isto é, mais de metade das pessoas em 2015, em Portugal, não tinham, em princípio, a vacina contra o sarampo.
Situação E - A vacina contra o sarampo, não somente é uma vacina contra esta doença, mas sim uma vacina combinada contra três doenças: sarampo, papeira e rubéola, a chamada VASPR. Sou só eu que acho anormal o facto de estar tudo incendiado contra os pais que não vacinam os filhos e no caso de não terem efectivamente vacinado contra o sarampo, não vacinaram contra mais duas doenças, no entanto é apenas de sarampo que se fala? Decerto podem dizer que é devido ao facto dos "grupos" estarem já vacinados e de isso criar condições que propiciem o não avanço das outras duas doenças, mas do meu ponto de vista é um pouco anormal que isto se passe apenas com o sarampo - mas é só o meu ponto de vista, não é um dado adquirido nem devidamente fundamentado.
Situação F - Para além do nosso país temos o resto do mundo, onde a informação, bem como as próprias vacinas podem não chegar a todos. Se alguém vier de outro local do mundo para Portugal e não tiver a vacina do sarampo, como actuar? 
Penso sinceramente que esta questão deveria de ser fortemente debatida e fundamentada para que no futuro casos como este não se repitam. Poderiam ser feitas campanhas de sensibilização onde se pudessem informar e alertar as pessoas para o risco da não vacinação, e repito, informar.
Hoje em dia o que mais vejo é pessoas a comentar nas redes sociais sem o mínimo de bases que fundamentem o seu argumento. Vivemos muito mais num tempo em que as coisas são assim porque são assim e porque sempre se fez assim. Isto, é claro, com informação à disposição, informação essa que infelizmente nem sempre é a "melhor" e cujas pessoas não se esforçam por procurar mais e saber mais - tanto  neste assunto como em qualquer outro.. -  e ao invés de se criticarem a si próprias antes de escreverem o que quer que seja, optam por criticar "os outros"  e tecer considerações em que o importante é mencionar os outros e sem pensar no próprio.
Quanto à erradicação de qualquer doença, por uma questão de lógica, nenhuma doença estará totalmente erradicada e eliminada também não é por muito tempo. Se as vacinas são produzidas, o vírus tem de existir em laboratório - e em princípio controlado, é que toda a gente espera -, se o vírus está supostamente controlado, existe a hipótese de haver um "descontrolo" e o vírus se espalhar, certo? Então por esta (minha) lógica, nada vai estar alguma vez erradicado, mas sim, momentaneamente controlado.
Por fim, e de importância extrema, queria não só alertar para a importância da vacinação dos pequenos de forma a proteger não só as crianças mas proteger a sociedade e contribuir para o bem estar de todos, mas também alertar para a importância de se estar informado perante situações como a que abordei no início e de não se mandar postas de pescada nas redes sociais  sem se saber o motivo dos acontecimentos.